Cartas de João

As cartas do apóstolo João às igrejas da Ásia Menor



Conheça a história e os assuntos tratados nas três cartas escritas pelo apóstolo João às igrejas da Ásia Menor. Preparamos um guia facilitado para você começar a leitura e se deliciar nos ensinos sobre Jesus, amor ao próximo e obediência à Deus!

A história das cartas

As três Cartas de João foram escritas pelo apóstolo João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, em Éfeso, para as igrejas da Ásia e para líderes de igreja, entre 90-95 d.C.

Como chegamos à autoria das Cartas?

"João evangelista" iconoclastia do século 18, de monastério em Carélia, Rússia
“João evangelista” iconoclastia do século 18, de monastério em Carélia, Rússia

Saber quem escreveu essas cartas é um problema à parte, já que o apóstolo João tem o péssimo costume de não assinar o que escreve. O autor de todas cartas não se apresenta. Apesar disso, há vários motivos que levam a deduzir a autoria.

O primeiro motivo que leva a apontar João como autor da carta é o testemunho de alguns autores da Igreja Primitiva. Por exemplo, Papias, o bispo de Hierápolis, que dizem ter sido discípulo de João, refere-se à primeira Carta como do filho de Zebedeu. Clemente de Alexandria, também, é um dos primeiros a se referir às três Cartas, no segundo século d.C. Já Ireneu, que conheceu Policarpo de Esmirna, que era discípulo de João, reconheceu as duas primeiras Cartas como do apóstolo. Já Orígenes de Alexandria, outro escritor do segundo século, menciona as três Cartas.

Há ainda outros motivos para se referir a João como autor das Cartas. Um deles é a semelhança entre a Primeira Carta com o Quarto Evangelho, também escrito pelo apóstolo. As semelhanças envolvem desde temas semelhantes, quanto vocabulário, e estilo de escrita. Por exemplo, ambos, Evangelho e Carta, utilizam as antíteses Luz e Trevas, Vida e Morte, Verdade e Mentira; Amor e Ódio etc. Também, os dois livros têm um modo peculiar de escrever o texto grego, com muitas influências da escrita hebraica.

Um outro argumento em favor de João é que o autor da Carta é uma testemunha ocular (1Jo.1.1-3). Além disso, tem consciência de sua autoridade sobre a igreja (1Jo.2.1-2,8) e em mais de uma congregação (2Jo.1.1-2; e 3Jo.1.1-2). Naquele tempo, somente um apóstolo teria autoridade sobre diversas congregações.

Apesar disso, na segunda e na terceira Carta, o autor refere-se a si mesmo como “o presbítero”. No entanto, isso não é um problema, haja visto que o apóstolo Pedro também se refere assim (1Pe.5.1). Aliás, somente um apóstolo poderia referir-se como “O presbítero”, com artigo definido, e sem necessitar se nomear, pois seria o único na região.

Por todos esses motivos relacionados, considera-se o apóstolo João, filho de Zebedeu, autor do Quarto Evangelho, como o autor da Primeira Carta.

Como autor das outras cartas, infere-se naturalmente pelas semelhanças que existem entre a Primeira, e as outras duas Cartas. A Primeira e a Segunda Carta são próximas no tema; e a Segunda e a Terceira, são próximas no tema e na estrutura.

Onde, quando e para quem as Cartas foram escritas

Para descobrirmos o local em que João escreveu as Cartas, recebemos novamente ajuda do testemunho de escritores dos primeiros séculos. Por eles, sabe-se que o apóstolo João se mudou para Éfeso depois da Guerra Judaica, por volta de 70 d.C. Ireneu diz que João não só viveu em Éfeso, como também supervisionou as igrejas da Ásia.

Outro dado que a tradição nos dá é que João teria voltado a Éfeso depois de seu exílio em Patmos, após o fim do governo de Domiciano. Deste modo, entende-se que o apóstolo João escreveu as três de suas Cartas na região de Éfeso.

Quanto à data das cartas, leva-se alguns dados em consideração. Primeiro, que os temas da Primeira Carta indicam que ela foi escrita depois do Evangelho, pois a carta foi destinada para quem já conhecia o Evangelho. A primeira carta seria como um complemento àquele. Sendo assim, as Cartas teriam sido escritas numa data posterior a 85 d.C.

Considerando ainda os temas, sabemos que a Primeira Carta está tratando de algumas heresias que são consideradas como o início do chamado gnosticismo. Reconhece-se, também, que os falsos mestres que João se refere estariam usando o Evangelho de João a favor deles. Além do mais, João não fala de perseguição sobre as igrejas, o que aponta para um momento na história mais pacífico para os cristãos. Devido a todos esses dados, crê-se que todas as Cartas teriam sido escritas entre 90-95 d.C

Agora, para sabermos os destinatários da Primeira Carta é só considerar os dados já obtidos. Assim, a Primeira Carta foi escrita para as Igrejas da Ásia, que João supervisionava de Éfeso.

Já a Segunda e a Terceira Carta são bilhetes pessoais escritos para atender a uma demanda específica. Na Segunda Carta, João diz escrever para uma “Senhora Eleita” (2Jo.1.1). Muitas suposições sobre quem seria ela são colocadas. Alguns dizem ser uma senhora chamada “Electa” (como se escreve, em grego “eleita”), ou “Kyria Electa” (como se escreve “senhora eleita”). Já outros preferem crer que seria uma mulher anônima que teria uma congregação local em sua casa. Outros, no entanto, creem ser uma forma de João se referir à uma igreja local específica.

Já na Terceira Carta, João escreve a Gaio (3Jo.1.1). Esse Gaio, no entanto, deve ser diferenciado do Gaio de Corinto (1Co.1.14, Rm.16.23); do da Macedônia (At.19.29) e provavelmente do de Derbe (At. 20.4). Ele certamente era um presbítero de alguma igreja local que auxiliava João, recebendo seus evangelistas quando o visitavam.

Gostou de saber?
Gostou de saber?

O conteúdo das cartas

A Primeira Carta de João mais se parece com um texto devocional que com uma carta. É uma carta escrita para edificação dos crentes. Nela, o próprio João apresenta os motivos de tê-la escrito.

O primeiro motivo da carta é a alegria da igreja:

“Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo.1.14).

O segundo motivo da carta é a santidade da igreja:

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis” (1Jo.2.1).

E o terceiro motivo revelado pelo autor para escrever a carta é o encorajamento da igreja:

“Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo.5.13).

Ruínas da Biblioteca de Celso, em Éfeso, onde as Cartas de João foram escritas
Ruínas da Biblioteca de Celso, em Éfeso, onde as Cartas de João foram escritas

Mas, além desses motivos revelados pelo próprio autor, é possível também extrair outros três grandes temas expostos na Primeira Carta: a fé na encarnação de Jesus Cristo; o amor ao próximo e a obediência aos mandamentos.

Esses três temas são expostos como três testes que os cristãos devem fazer para avaliar a vida cristã. O primeiro é chamado de teste da verdade, ou teste doutrinário; o segundo, de teste moral, ou teste da obediêcia; e o terceiro, teste social, ou teste do amor.

Além desses temas de edificação, a Primeira Carta também possui um propósito apologético, como diz 1Jo.2.26:

 “Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar”

A região estava sendo invadida por erros doutrinários. A Carta aponta para uma igreja que havia recentemente vencido os falsos mestres (1Jo.2.18-19), mas ainda alguns a ameaçavam (1Jo.2.26).

O autor escreve para ensinar a discernir quem são os falsos mestres. Os erros desses “anticristos” era o de negar que Deus havia encarnado em Jesus Cristo; também diziam ter superioridade espiritual, e possuíam um moralismo frouxo.

Esses erros doutrinários apontam para um grupo conhecido como gnosticismo. No tempo da Carta, esse grupo estava ainda em formação. Na Ásia, um grupo particular de gnosticismo foi chamado de nicolaíta, apresentado em Apocalipse (2.6 e 2.15).

Assim, a Primeira Carta possuía primeiro um motivo de edificação, para fortalecer os crentes, e depois um motivo apologético, para que a igreja identificasse os falsos mestres.

"Querida senhora eleita"
“Querida senhora eleita”

Já a Segunda e a Terceira Carta possuem temáticas semelhantes. Ambas tratam do relacionamento com os pregadores itinerantes que caminhavam pela Ásia.

A Segunda Carta alerta sobre o abuso de falsos mestres que se espalhavam pela região (2Jo.1.7) e pede para que a igreja não se envolva no ministério desses enganadores (2Jo.8-9).

Já a Terceira Carta é o oposto. João escreve a Gaio por causa de uma liderança da igreja chamada Diótrefes, que desejava usurpar o poder dos apóstolos, e impedia que os enviados por João fossem acolhidos pela igreja, além de perseguir aqueles que os acolhia. Diótrefes chegou ao ponto de esconder uma carta enviada pelo Apóstolo (3Jo.1.9). Assim, João recomenda que Gaio receba Demétrio, um de seus evangelistas (3Jo.1.8).

Por isso, a Segunda e a Terceira Carta se completam. Uma, ensina a igreja a não se tornar cooperadora da Mentira, abrigando falsos mestres, e depois, incentiva a se tornar cooperadora da Verdade, hospedando aqueles com um bom testemunho.

A Segunda e a Terceira Carta são as mais curtas do Novo Testamento, com menos de 300 palavras gregas, cada uma.

Resumo dos capítulos

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1João 1

O autor registra o que viu e ouviu sobre a pessoa de Jesus Cristo, e diz que aquele que anda na luz, mas não tem comunhão com Deus e anda em pecado, é um mentiroso.

1João 2

Jesus Cristo intercede pelos nossos pecados, concedendo perdão, mas aquele que diz conhecer a Deus, guarda os seus mandamentos. Além do mais, aquele que diz conhecer a Deus, ama o seu próximo e não ama o mundo e as coisas do mundo. Aquele que nega Jesus Cristo é o anticristo, mas o verdadeiro crente permanece em Jesus.

1João 3

Os filhos de Deus não andam em pecado, mas os filhos do Diabo não praticam a justiça e não amam ao seu irmão. Aquele que ama o seu próximo, não só de palavras; e obedece os mandamentos; e crê em Jesus Cristo, permanece em Deus pelo Espírito Santo.

1João 4

Quem ama a seu próximo e confessa Jesus Cristo tem o Espírito da Verdade; devemos examinar os falsos mestres, para ver se procedem de Deus ou do erro.

1João 5

O que crê em Jesus Cristo vence o mundo. Aquele que ama a Deus e obedece seus mandamentos permanece em Deus.

2João

Amem uns aos outros, mas não tenham comunhão com os falsos mestres, para não se tornarem participantes das obras dos anticristos.

3João

Gaio deve receber Demétrio, pois este dá um bom testemunho, e não imitar Diótrefes, que quer ser maior que todos e impede que os evangelistas de João ensinem na igreja.

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Fonte:

Introdução ao Novo Testamento, Donald Carson
Descobrindo o Novo Testamento, Bill Arnold e Brian Beyer
1, 2 e 3 João – Introdução e comentário, John Stott
Novo Dicionário da Bíblia, John Davis
Manual Bíblico Unger

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