A guerra dos quatro reis contra cinco

Para resgatar o sobrinho Ló, Abrão se meteu em uma das mais antigas guerras mundiais da História e a primeira registrada na Bíblia. Com 318 mercenários, ele trouxe paz a Canaã.



Vale de Sidim: 1950 a.C

Uma rebelião das nações do Jordão contra o império mesopotâmico dá início a uma das mais antigas guerras mundiais que se tem notícia: a guerra dos quatro reis contra cinco.

Mas o resultado dessa guerra não virá pelas mãos de reis lutando pela liberdade, nem de imperadores buscando manter o domínio. E sim pelas mãos de um homem, ajudado por Deus, indo à guerra para proteger a sua família.

Confira a história da primeira batalha relatada na Bíblia, registrada em Gênesis 14, em que Abrão foi à luta para resgatar seu sobrinho Ló, e se tornou o herói de uma vitória extraordinária!

O domínio de Quedorlaomer no Jordão

Quedorlaomer foi o imperador de Elão, onde atualmente é o Irã.

Quatorze anos antes dos eventos narrados em Gênesis 14, Quedorlaomer saiu da Mesopotâmia e seguiu para o Ocidente, conquistando os reinos da região do Jordão. Assim, esses reinos se tornaram vassalos do imperador.

O imperador tinha muitos interesses na região. Por exemplo, com a conquista, ele passou a dominar a estrada das caravanas vindas da Arábia, e o trânsito para o Egito. Além do mais, é possível que o interesse de Quedorlaomer tenha sido mesmo o betume, extraído dos poços do vale de Sidim.

De todo modo, a região era importante para o rei de Elão, afinal, ele dominou por doze anos. Até que a passividade dos reis vassalos do Jordão chegaria ao fim.

“Abrão vai resgatar seu sobrinho Ló” Tempesta, 1613

A rebelião da Pentápolis do Jordão

Por volta de 1950 a.C, no 13° ano do domínio mesopotâmico no Jordão, uma coalizão de reis do sul resolveu dizer chega a Quedorlaomer, e se rebelou contra ele. Os reis rebeldes foram:

  • Bera, rei de Sodoma;
  • Birsa, rei de Gomorra;
  • Sinabe, rei de Admá;
  • Semeber, rei de Zeboim e
  • o rei de Belá (também chamada de Zoar).

Eram cinco cidades-estado do Vale de Sidim, próximas do Mar Morto. O Vale de Sidim era uma região muito rica e próspera e os reis não queriam mais pagar os tributos devidos. Por isso, rebelaram-se e se tornaram independentes.

Mas… será que Quedorlaomer vai deixar barato?

O império contra-ataca

No segundo ano da rebelião, Quedorlaormer uniu-se a outros três reinos do Norte e seguiu para o Ocidente, para dar uma lição aos rebeldes. A confederação do Norte de Quedorlaomer foi formada por:

  • Anrafel, rei de Sinear;
  • Arioque, rei de Elasar;
  • Quedorlaomer, rei de Elão;
  • Tidal, rei de Goim.

***

O rei Anrafel é uma figura enigmática. Na lista dos reinos do Norte, ele aparece em primeiro lugar, dando a entender ser o maior dos reis. Seu reino, Sinear, é local da famosa Babilônia, onde hoje é o Iraque.

Na Bíblia, o primeiro imperador de Sinear foi Ninrode, um grande guerreiro do passado. Aliás, algumas tradições judaicas dessa história apontam Anrafel como o próprio Ninrode, embora essa seja apenas uma das teorias sobre Anrafel.

Outra teoria aponta que Anrafel seria Hamurábi, o rei da Babilônia daquele período, muito conhecido por sua obra jurídica conhecida como Código de Hamurábi.

***

Era uma confederação formada por quatro reinos do Norte: Elão (hoje o Irã); Sinear (hoje o Iraque), e Goim e Elasar (Turquia). Quando ela saiu da Mesopotâmia, entrou na Palestina e causou grande destruição:

“No décimo quarto ano, Quedorlaomer e os reis que a ele se aliaram derrotaram os refains em Asterote-Carnaim, os zuzins em Hã, os emins em Savé-Quiriataim e os horeus desde os montes de Seir até El-Parã, próximo ao deserto. Depois, voltaram e foram para En-Mispate, que é Cades, e conquistaram todo o território dos amalequitas e dos amorreus que viviam em Hazazom-Tamar.” Gn.14.5-7.

O exército abriu uma rota de destruição e domínio mesmo antes de chegar até os reis de Sidim. A estratégia de choque e pavor era para causar medo e rendição aos reinos rebeldes muito antes do confronto. A estrada pela qual seguiu o exército é hoje conhecida como a Estrada do Reis, e foi encontrada pelos arqueólogos em 1924.

Outro detalhe muito importante sobre as primeiras batalhas dessa guerra de retomada diz respeito aos povos que foram dominados no caminho. Foram os refains, os zuzins, os emins, e os horeus: esses povos estão retratados em Dt.2.10-12, e v.20 (os zuzins seriam os zanzunins). É dito desses povos que eram numerosos e muito altos. Eram povos de gigantes, como Golias, de Gate. Os povos dominados por Quedorlaomer, nessa guerra de retomada de poder, eram reinos poderosos e temíveis, que foram rapidamente dominados pela forte confederação do Norte.

A batalha do Vale de Sidim

Enquanto a confederação do Norte, liderada por Quedorlaomer, deixava seu rastro de destruição, a Pentápolis rebelde se organizava para se defender. Quatro reis contra cinco.

Esse primeiro confronto do império contra os rebeldes ocorreu no Vale de Sidim, mas não foi favorável aos “da casa”. Quedorlaomer infligiu uma dura derrota para os rebeldes, que foram ainda mais humilhados quando pegos em suas próprias armadilhas.

O vale tinha muitos poços de extração do betume. Quando os soldados de Sodoma e Gomorra fugiram, muitos soldados caíram nesses poços. A derrota foi tão grande que os soldados sequer reconheciam seu próprio terreno com a localização dos poços. Já os sobreviventes fugiram para os montes:

“Ora, o vale de Sidim era cheio de poços de betume e, quando os reis de Sodoma e de Gomorra fugiram, alguns dos seus homens caíram nos poços e o restante escapou para os montes.” Gn.14.10.

A humilhação e a derrota se estendeu. Os reis do Norte entraram em Sodoma e saquearam toda a terra, roubando os bens e levando o povo como escravo. Quedorlaomer conquistou uma vitória devastadora para os rebeldes.

A única coisa que Quedorlaomer não esperava era que, entre os moradores de Sodoma levados como escravo, havia o sobrinho de Abrão.

O resgate do sobrinho Ló

E assim teria acabado uma das grandes guerras mundiais da antiguidade, não fosse Quedorlaomer ter mexido com a família errada. Essa batalha não teria entrado no livro mais extraordinário de todos os tempos se o rei de Elão não tivesse invadido Sodoma e levado Ló como escravo.

Quando o exército imperial foi embora, um sábio soldado, sabendo da força de Abrão e do amor dele pelo sobrinho, escapou da batalha e correu avisar o patriarca, que vivia próximo aos carvalhos do Manre.

“Vem me buscar tio Abrão!”
Cena do filme “O resgate do soldado Ryan”

Abrão até então só observava de longe. Talvez intercedesse pelos rebeldes, por causa de seu sobrinho. Talvez intercedesse pelo sobrinho. Mas até então não tinha entrado na guerra. Não tinha motivos fortes o suficiente. Até agora…

Assim que Abrão soube do sequestro, tratou de organizar um exército para resgatar Ló. Primeiro, separou seus guardas pessoais, que trabalhavam com ele para proteger seu rebanho. Eram, ao todo, 318 homens, o que naquela época era um grande exército já. Eram os 310 de Abrão:

“Quando Abrão ouviu que seu parente fora levado prisioneiro, mandou convocar os trezentos e dezoito homens treinados, nascidos em sua casa, e saiu em perseguição aos inimigos até Dã” (Gn.14.14).

Depois, fez um acordo militar com seus aliados amorreus Aner, Escol e Manre. Assim, com seu exército de servos e mercenários, saiu na caça dos confederados do Norte, que retornavam para a Mesopotâmia. Seguiu os soldados até Dã.

De lá, Abrão dividiu-se com Aner, Escol e Manre e atacou Quedorlaomer, durante a noite, em várias frentes.

Os reis do Norte estavam despreparados e foram derrotados pelo exército de Abrão: foram enxotados de Canaã até Damasco. E Abrão tomou de Quedorlaomer tudo o que ele havia espoliado do Jordão.

Foi assim que Abrão, com seus 318 homens, mais os mercenários, derrotou um império da Mesopotâmia, resgatou seu sobrinho Ló e libertou os reinos do Jordão.

Mas a história ainda não acabou, e a parte mais interessante ainda estava por vir.

“É nóis!”

Encontros no Vale do Rei

“Melquisedeque e Abraão”, Colin Nouailher, 1560-1570

Enquanto Abrão retornava vitorioso da batalha, Bera, rei de Sodoma, foi ao encontro dele no Vale de Savé, o Vale do Rei. Nesse ínterim, surgiu uma das figuras mais misteriosas da Bíblia: Melquisedeque, rei de Salém.
Melquisedeque, cujo nome significa Rei da Justiça, era rei de uma cidade chamada Salém, que será a futura Jerusalém. Ele é uma figura que aparece do nada e some do nada. Nada se fala dele antes, e não se tem mais nenhuma outra história sobre ele depois.

Além do mais, esse rei e essa cidade nada tinham a ver com essa guerra. Não foram nem atingidos, nem estavam envolvidos em exércitos.

Para complicar, ele é apresentado tanto como rei quanto como sacerdote. E essa é a primeira vez na Bíblia que se menciona um sacerdote. Melquisedeque é apresentado como “sacerdote do Deus Altíssimo” (14.18).

Ou seja, embora fosse rei e sacerdote, nada se sabe sobre sua linhagem para trás, nem sua descendência, pra frente. Quem o ordenou sacerdote? A qual povo ele servia?

O autor de Hebreus completa ainda mais a apresentação desse rei, assim:

“Esse Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, encontrou-se com Abraão quando este voltava, depois de derrotar os reis, e o abençoou; e Abraão lhe deu o dízimo de tudo. Em primeiro lugar, seu nome significa “rei de justiça”; depois, “rei de Salém” quer dizer “rei de paz”. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre” (Hb.7.1-3).

Ou seja, diz-se que ele “não teve princípio de dias, nem fim de existência” e que ele “permanece sacerdote perpetuamente”.

Então, Hebreus nos dirá que Melquisedeque era maior do que Abrão:

“Este homem, porém, que não pertencia à linhagem de Levi, recebeu os dízimos de Abraão e abençoou aquele que tinha as promessas. Sem dúvida alguma, o inferior é abençoado pelo superior” (Hb.7.6-7).

Agora, veja o que ocorreu nesse encontro: esse misterioso rei veio ao encontro de Abrão e ofereceu um banquete completo, de pão e vinho. Em seguida, Melquisedeque o abençoou:

“Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, Criador dos céus e da terra. E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou seus inimigos em suas mãos” (Gn.14.19-20).

E Abrão lhe deu o dízimo dos despojos da guerra.

Ou seja, o rei abençoou Abrão, e este dizimou a aquele. Por isso, segundo Hebreus, Melquisedeque é superior a Abrão. E o sacerdócio desse rei é maior até mesmo que o de Arão!

Deste modo, dando o dízimo dos despojos, Abrão reconheceu que a vitória daquela batalha só foi possível pelo auxílio do “Deus altíssimo”.

Em seguida, veio o rei de Sodoma Bera e intercedeu pelo seu povo ao patriarca peregrino. Pediu a Abrão que devolvesse as pessoas que haviam sido resgatadas, mas disse que ele poderia ficar com todos os despojos da batalha.

Abrão, por sua vez, não quis receber nenhuma moeda dos despojos. Embora ele já tivesse dado o dízimo, ele não iria ficar com nada! Somente pediu para que seus aliados amorreus, Aner, Escol e Manre recebessem a parte deles. Ele mesmo não quis mais nada. E o objetivo era único: “para que você jamais venha a dizer: ‘Eu enriqueci Abrão” (14.23).

Assim, Abrão recebeu Melquisedeque, ceou com ele, foi abençoado por ele e deu-lhe o dízimo dos despojos da guerra. Mas, quando recebeu o rei de Sodoma, não quis receber os seus bens de direito.

E Ló retornou a Sodoma…

E eu com isso?

Abrão não entrou naquela guerra para ficar rico e conquistar aquela terra com as suas próprias mãos e com a sua própria força. Ele entrou naquela guerra para proteger sua família, e deste modo agradar a Deus.

Deus o auxiliou e trouxe a vitória a ele. Ao final, Abrão reconheceu que a vitória veio de Deus. Ao mesmo tempo, não quis a recompensa pela batalha, pois não quis se misturar com as riquezas das nações idólatras.

Do mesmo modo, nós não devemos correr atrás das riquezas humanas, nem conquistar o mundo com a nossa própria força. Mas, quando somos chamados para a guerra, por motivos que agradam a Deus, nós podemos confiar nEle, pois o Deus altíssimo virá em nosso auxílio.

Confira:

Consulta:

História de Israel, Samuel Schultz – Vida Nova
Novo Comentário da Bíblia, F. Davidson
Manual Bíblico Unger, Vida Nova
Bíblia de estudo de Genebra

Infocard

6 thoughts on “A guerra dos quatro reis contra cinco

  1. Muito bom esse estudo parabéns e glórias a Deus agora tive uma outra linha de interesse sobre Melquisedeque ? Obrigado

  2. Excelente texto ! Procurei em livros e em outros sites auxílio para estudar este texto bíblico até que encontrei seu brilhante texto ! Que Deus continue te abençoando !

  3. Caramba! Nenhum comentário!!! E já faz 01 ano desse texto. Por isso q dizem q alguns cristãos são ingratos… mas enfim. Fiz minha parte, e compartilharei este belo site. Um bom trabalho a todos.

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